A obra de madeira que ergueu a Cidade da Música da Bahia

A obra de madeira que ergueu a Cidade da Música da Bahia
Vanessa D'Amaro |

O museu dedicado a preservar a história e o legado dos músicos baianos está ganhando uma ampliação, com a inclusão de dois novos edifícios, ambos imóveis históricos (um deles em ruínas) que passaram por adaptações à base de madeira engenheirada.

O Complexo Cidade da Música da Bahia, localizado na Cidade Baixa de Salvador, já terminou no mês passado a reforma de um dos dois prédios, a Casa de Espetáculos, e prepara para o ano que vem a conclusão das obras do Edifício Escola.

O projeto de expansão do complexo é assinado por Adriano Mascarenhas, fundador da Sotero Arquitetos e um dos principais entusiastas na Bahia do uso da madeira engenheirada, também conhecida como Madeira Laminada Colada (MLC). Ele foi o primeiro a usar o material no retrofit de imóveis históricos.

“É inevitável trabalhar com a madeira laminada colada aqui em Salvador. Ela é ecologicamente correta, é bonita e substitui o aço, que é um material inadequado por conta da salinidade de todo o litoral nordestino. Temos problemas gravíssimos aqui de corrosão,” Adriano disse ao Metro Quadrado.

Inaugurada em 2021 pela Secretaria de Cultura de Salvador, a sede original do museu ocupa o conhecido Casarão dos Azulejos Azuis, no bairro do Comércio, em frente ao Mercado Modelo e próximo ao Elevador Lacerda.

O edifício histórico passou por um restauro conduzido pela Fundação Mário Leal Ferreira (FMLF) para abrigar o acervo e as exposições permanentes, que combinam recursos visuais, projeções e tecnologia audiovisual e sensorial para percorrer a história da música baiana, de suas raízes aos dias de hoje.

No mesmo ano da inauguração da sede do museu, Mascarenhas foi convidado pela Secretaria de Cultura de Salvador para conduzir a expansão do Complexo.

Ele abriu o Sotero Arquitetos em 2008 depois de trabalhar por anos com outro arquiteto baiano famoso, David Bastos. De lá para cá, acumulou projetos de planejamento urbano e obras públicas, como a requalificação da Praça Irmã Dulce, da orla de Jaguaribe e do Largo da Lapinha.

Mascarenhas costuma empregar a madeira laminada colada em parceria com empresas de engenharia especializadas. Entre os projetos recentes da Sotero que utilizam o material estão a Estação Calçada de VLT e o terminal da Praça Marechal Deodoro.

Foi justamente o material que deu o ponto de partida para a criação da Casa de Espetáculos, que ocupa as ruínas de um imóvel do século 17 nos fundos da sede do museu. Para preservar os vestígios da construção original, da qual restavam apenas as paredes externas, e adaptar o espaço ao novo uso, Mascarenhas desenvolveu a estrutura em parceria com Hélio Olga e a ITA Engenharia em Madeira.

“Nós tivemos que fazer um escaneamento a laser das ruínas para a ITA conseguir trabalhar nas peças de MLC. Trabalhamos com uma precisão milimétrica, de maneira muito rigorosa,” afirma o arquiteto.

Para ele, o caráter contemporâneo do edifício vem justamente da combinação entre a madeira e os materiais originais, como a pedra e o adobe. 

Esta composição também contribuiu para o tratamento acústico, desenvolvido por José Nepomuceno, do escritório Acústica & Sônica, responsável por projetos como os da Sala São Paulo e do Teatro Castro Alves.

O espaço reúne um teatro do tipo black box, que permite diferentes configurações para apresentações e tem capacidade para 200 pessoas, além de foyer e café. O Coletivo Rumpilezzinho e o cantor Lazzo Matumbi foram responsáveis pela inauguração no dia 18 de setembro, testando e aprovando a estrutura para shows.

Já o Edifício Escola fica ao lado da Casa de Espetáculos e também está sendo reformado a partir de um imóvel abandonado. Como o bairro do Comércio é uma área protegida de Salvador, Mascarenhas recebeu do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) a orientação de criar para o prédio uma espécie de construção “de transição”.

A solução foi necessária porque o programa exigia mais pavimentos do que a construção original comportaria. Assim, o arquiteto projetou um edifício de cinco andares, com altura intermediária entre as construções históricas da região e os prédios contemporâneos da área mais moderna da cidade.

Embora não seja tão alto quanto os edifícios novos, o Edifício Escola tem vista para a Baía de Todos-os-Santos a partir do rooftop.

Um dos destaques da arquitetura são as escadas de madeira, que parecem flutuar entre os andares. O efeito, que chama a atenção já nas imagens do projeto, vem de uma solução construtiva pouco convencional: em vez de se apoiarem no piso, as escadas são fixadas nas paredes laterais e no teto.

“Já disseram que elas parecem as escadas da escola do Harry Potter,” brinca Mascarenhas.

O programa inclui espaços de estudo e formação, estúdios de música, biblioteca, dois cafés e uma área para pequenos recitais. A ideia é oferecer cursos técnicos e livres de música, incluindo formação de profissionais de produção musical. O projeto pedagógico também incorpora o método de ensino dos ritmos afro-baianos criado pelo maestro Letieres Leite, que dá nome aos dois edifícios novos.

A escola também busca complementar a proposta do museu, cujo acervo inclui centenas de canções em formato digital, salas com projeções de orquestras e manifestações populares, além de conteúdos sobre blocos afro e diferentes gêneros musicais do estado, como axé, pagode baiano, MPB, samba de roda e hip-hop.

Embora a reforma ainda não esteja concluída, Mascarenhas acredita que a inovação do projeto abre novos caminhos para as obras públicas de Salvador.

“Muita gente já vem me perguntar sobre o uso da MLC em uma obra do patrimônio histórico. É importante nas intervenções contemporâneas você dizer que é uma intervenção do presente e não simular o que veio do passado. E a estrutura de madeira deixa isso bem evidente,” diz Mascarenhas.

O crédito das imagens é de Leonardo Finotti.

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