O projeto arquitetônico do novo Itaú Cultural na Paulista

O projeto arquitetônico do novo Itaú Cultural na Paulista
Vanessa D'Amaro |

O projeto do novo prédio do Itaú Cultural na Av. Paulista – anunciado no início da semana – foi desenvolvido por três jovens arquitetos de São Paulo que venceram uma concorrência de peso.

Marcus Vinicius Damon, Guilherme Bravin e Erica Tomasoni – os fundadores do Estúdio Módulo – superaram escritórios consolidados e fundados há mais tempo, como o Bernardes Arquitetura, o FGMF, o Libeskindllovet, o SPBR e o Studio MK27.

“Nós tratamos este trabalho como o grande projeto da nossa vida,” Marcus disse ao Metro Quadrado.

O Estúdio Módulo ganhou projeção recentemente com o projeto do Centro Cultural Rio-África, na região do Porto Maravilha, no Rio de Janeiro. Desta vez, os arquitetos vão atuar mais perto de casa.

O prédio será construído em um terreno comprado no ano passado pela Fundação Itaú por R$ 49 milhões.

O espaço, antes usado como estacionamento, fica ao lado da Fiesp, na esquina com a Rua Pamplona, e a seis quadras da atual sede do Itaú Cultural, também na Paulista.

Com 19 pavimentos e 12 mil metros quadrados, o novo edifício só deve ficar pronto em 2031, e foi pensado para ampliar a capacidade expositiva da instituição e “receber melhor o público”, nas palavras do próprio Alfredo Setúbal.

O prédio atual – que seguirá sendo usado pela fundação após a mudança – não tem a flexibilidade dos centros culturais contemporâneos, capazes de acomodar um grande público e obras de grande porte em eventos com formatos variados. 

Desenhado por Ernest Mange (1922-2005) e reformado por Roberto Loeb, o imóvel foi concebido originalmente como um espaço voltado à pesquisa – e adaptado ao longo das décadas para receber exposições, eventos e espetáculos. 

A proposta do Estúdio Módulo para o Itaú Cultural se destaca pela sensibilidade do desenho. Em vez de competir visualmente com os edifícios vizinhos, o trio apostou em uma arquitetura leve, marcada pela estrutura metálica, pela transparência e pela permeabilidade.

“Não queríamos fazer um prédio que grita. Queríamos um prédio que fosse quase como um violão bem tocado,” disse Marcus.

Essa ideia aparece já na fachada. Uma composição de brises brancos ritmados por frestas alternadas funciona como uma sequência de grandes janelas abertas para a cidade. 

Dependendo do ângulo de observação, diferentes cores surgem entre os elementos, criando um efeito óptico que remete à arte cinética. Entre as referências do projeto estão as obras do venezuelano Carlos Cruz-Diez e as esculturas geométricas de Amílcar de Castro.

“Buscamos citar alguns artistas no momento em que desenhamos a fachada, porque de fato é um centro cultural. Aquele bloco que se destaca mais vai acolher as exposições, então achamos bonito fazer algumas homenagens no desenho,” disse.

O edifício será distribuído em 11 pavimentos acima do nível da rua, o térreo e sete subsolos — há ainda áreas de circulação voltadas para a avenida Paulista.

No térreo, os arquitetos propuseram uma espécie de praça pensada como uma extensão da própria Paulista. A ideia é que o espaço funcione como área de acolhimento para o público. 

Entre o térreo e o primeiro subsolo ficarão um café, um restaurante, uma loja e uma grande arquibancada multiuso que, ao cair da noite, poderá receber projeções e se transformar em cinema.

Os subsolos abrigarão um auditório, um teatro e áreas técnicas. E é justamente aí que aparece uma das soluções mais engenhosas do projeto, apelidada pelos arquitetos de “clareira”, inspirada na Mata Atlântica. 

Para levar luz natural aos pavimentos subterrâneos, o trio criou uma grande abertura para um jardim. As plantas, portanto, acompanham o percurso da luz até os níveis mais baixos.

“Desenvolvemos esta clareira que deixa a luz entrar nos pavimentos inferiores. Inclusive o paisagismo foi pensado com vegetação de sub-bosque, que vai sobreviver da maneira mais adequada a essa condição enterrada,” disse Marcus.

Essa luminosidade chega até a área do teatro, localizado bem abaixo do nível da rua e desenhado para acomodar diferentes tipos de espetáculos.

“Pode assustar o teatro a seis andares de profundidade, mas o pé-direito é muito alto. Estamos fazendo um teatro flexível com urdidura, que recolhe os cenários para cima e permite retirar todas as poltronas. É uma área muito versátil e tecnológica,” diz.

Já subindo do primeiro ao sexto andar, os pés-direitos generosos, que variam de quatro a seis metros de altura, foram pensados para receber obras de arte contemporânea de grande escala. 

Ali também ficarão a coleção permanente Brasiliana e o espaço Ocupação, dedicado às exposições temporárias sobre artistas, literatura e cultura brasileira.

Nos andares superiores, salas multiuso, estúdios de gravação e a área administrativa ganharão um terraço dedicado aos funcionários da instituição.

“Um dos grandes debates contemporâneos é sobre a saúde mental. É importante que o espaço seja agradável para quem visita, mas também muito qualificado para quem trabalha no dia a dia,” afirma o arquiteto.

Para os arquitetos, a grande expectativa é que o edifício seja ocupado não apenas pelo público especializado em arte, mas também por qualquer pessoa que simplesmente esteja passando pela Paulista.

“Por mais que alguém não seja um grande apreciador de arte, acho que vai ser um espaço em que a pessoa vai ter curiosidade para entrar e vai gostar. Que seja pelo café, pela lojinha ou para levar os filhos no final de semana,” disse.

Segundo a Fundação Itaú, toda a obra do novo prédio utilizará apenas recursos próprios da instituição e não recorrerá a incentivos fiscais das leis culturais.

Siga o Metro Quadrado no Instagram

Seguir